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10/2009 - Matéria Revista Serafina/Folha de S.Paulo - Outubro de 2009
NA CONTRAMãO
O DENTISTA FABIO BIBANCOS LANçA O DOCUMENTáRIO “ BOCA A
BOCA” PARA HASTEAR MAIS LONGE SUA BANDEIRA POR UM PAíS SEM BANGUELAS
Elizeu Souza Marinho, 16, morador da favela de Paraisópolis,
em São Paulo,
só fala olhando para baixo. Perdeu todos os dentes da frente, e mal se ouvia a
sua voz. “Não me lembro do som do meu riso”, diz. O maior sonho de John Lennon
Marques Machado, 17, de Itapetininga (a 170 km da capital), é ter um sorriso alinhado e
sentir prazer ao se olhar no espelho. Maria Rita da Conceição, 13, levou um
tombo brincando em sua cidade, Santo André, no ABC paulista, e perdeu um dente
da frente. Desde então, evita até mesmo a roda de amigas.
Esses são alguns dos momentos do filme “Boca a Boca”, que o
dentista Fabio Bibancos lança no Brasil e na América Latina amanhã, 26 de
outubro. Ele sabe que um “documentário de dentista” não é lá algo muito
atrativo, mas, nesse caso, há dois fatores que podem turbiná-lo: primeiro,
doutor Bibancos é o dentista das celebridades – sua freguesia estrelada inclui
o comediante Marcelo Médici, a atriz Adriana Esteves e as cantoras Ana Carolina
e Zélia Duncan, além de todos os bonitões da página ao lado. Segundo, porque
ele já vem no embalo dos 6.000 dentistas que fazem parte da ONG Turma do Bem,
fundada por ele em 2002, com o objetivo – além de cobrar o governo pelo descaso
nessa área – de fazer com que cada dentista no Brasil “adote” em seu
consultório pelo menos uma criança sem condições de pagar. “Isso teria um
grande efeito multiplicador e acabaria sendo um sinal de que a ideia de as
crianças brasileiras sorrindo bonito – todas elas, e não só as ricas – não é o
sonho de um idealista.”
BRASIL DESDENTADO
Foi com base nessa “adoção” que o sorriso de Elizeu, John
Lennon e Maria Rita foi recuperado, e o mesmo aconteceu com outras 12 mil
crianças brasileiras. Mas ainda tem muita gente na mesma tristeza que eles
passaram. Até o ator global Rodrigo Lombardi se lembra sem saudade da vida
antes de Bibancos. “Meus dentes pareciam cacos de vidro pregados no muro”, diz.
Simpático, Fabio Bibancos tem aquela conversa fácil de quem
sabe o que diz – e defende uma ideia com paixão. Porém, ao relatar o retrato
tenebroso da situação dentária do Brasil, de repente vira fera: “Com 25 milhões
de desdentados e nenhum plano sério do governo para cuidar das crianças, o
Brasil, do ponto de vista dentário, é uma vergonha internacional. Por que as
clínicas odontológicas e os consultórios não têm uma porcentagem obrigatória de
atendimento pelo SUS, como têm os hospitais?”
As primeiras noções de responsabilidade social foram
passadas a esse paulistano de 46 anos no ensino médio, na escola jesuíta São
Francisco Xavier, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Os frades promoviam
visitas à favela vizinha, de Heliópolis, para que os garotos vissem também a
realidade de um mundo que não era o deles.
Em 1995, já formado, criou o projeto Adotei um Sorriso, para
atender crianças da Fundação Abrinq, de onde saiu para embarcar na sua atual
Turma do Bem.
Diz que só dá conta de seu consultório (muito procurado) e
da ONG porque os dois funcionam ao lado de sua casa, na Vila Mariana. é nesse
trânsito para lá e para cá que Fábio passa os seus dias – que começam
invariavelmente com uma corrida no parque Ibirapuera. “Corro de 6 a 18 quilômetros por
dia”, diz ele, um fumante inveterado. “Nunca consegui parar. Já fiz de tudo,
mas é colocar o nariz para fora da clínica que acendo um cigarro.” Casado com a
também dentista Miriam, 44, é pai de Bernardo, 12, que nunca teve uma cárie.
“Coitado, ele não tem trégua. Eu e a mãe pegamos no pé no quesito escovação.
Cada vez que ele sorri, os dois olham.”
PRêMIO E PORRADA
Por sua multiatividade, Bibancos recebeu, em 2006, o Prêmio
Empreendedor Social, parceria da Folha com a Fundação Schwab, da Suíça. Mas nem
toda notícia envolvendo o seu nome foi sempre positiva. Em julho de 2008, num
sábado de manhã, Fábio teve de atravessar a rua de sua casa correndo, depois
que a porta de vidro de seu consultório foi estourada pela Polícia Federal.
Alegando que ali funcionava o escritório de um poderoso doleiro da cidade, os
policiais reviraram tudo e levaram todos os computadores. “Eu falava: olha para
mim, eu sou dentista, este é o meu consultório!” Apesar das evidências, nada os
convencia. Fábio diz ter sido tratado com truculência e que chegou a levar
socos e pontapés. Foi direto para o exame de corpo de delito. “Apesar de pesar
63 quilos, reagi. Por que tinha de passar por aquilo?”
O susto não abalou suas convicções. Fábio fica entristecido
quando lembra que o brasileiro, abnegado, acostumou-se com a ideia de que ir ao
dentista é um privilégio de quem tem dinheiro. “O povo não vê como direito seu
ter um bom dentista público e se conformou com essa situação. é preciso lutar
contra isso.”
Do outro lado da história, o dentista convive com o glamour
de algumas das maiores estrelas do Brasil. “Eles são esclarecidos e sensíveis.
Não chegam aqui querendo exagerar nos cuidados. Não atendo perua.” Nenhuma? “às
vezes, aparece uma maluca naquela busca desenfreada pela beleza. Elas aumentam
a boca e então querem aumentar os dentes. Minha responsabilidade é dizer não.”
Atrás de um sorriso rejuvenescido, muitas trazem fotos e
querem que seus dentes se aproximem em brancura. “Posso deixar cada dente com a
melhor cor que ele já teve, mas cada branco tem o seu mínimo. Não dá pra ter o
dente da cor da geladeira.”
Fonte:
Revista Serafina – Folha de S.Paulo
Outubro de 2009
Coluna Pessoa Física – Jornalista Ana Ribeiro
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